Dra. Mariana Fischer, Otorrinolaringologista

Blog · Junho de 2026

Otite de repetição em crianças: quando levar ao otorrino?

Toda criança tem otite alguma vez. Mas quando os episódios se repetem com frequência, é hora de investigar. Entenda as causas, os riscos e o momento certo de buscar avaliação especializada.

Otite é uma das condições mais frequentes na infância. Estima-se que cerca de 80% das crianças terão pelo menos um episódio até os três anos de idade. Na maioria das vezes, o quadro se resolve sem complicações. O problema é quando as otites deixam de ser episódios isolados e passam a se repetir com frequência.

O que é otite?

Otite é a inflamação do ouvido. O tipo mais comum em crianças é a otite média aguda, que afeta o ouvido médio, localizado atrás do tímpano. Ela costuma surgir como complicação de um resfriado ou de uma infecção das vias aéreas superiores.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • Dor de ouvido (a criança pequena pode manifestar isso como irritabilidade, choro intenso, ou o gesto de puxar o ouvido)
  • Febre
  • Dificuldade para dormir
  • Redução temporária da audição
  • Em alguns casos, saída de secreção pelo ouvido (quando há perfuração do tímpano)

Por que crianças têm mais otite?

A tuba auditiva (antigamente chamada de trompa de Eustáquio) é o canal que conecta o ouvido médio à parte posterior do nariz. Ela tem duas funções principais: ventilar o ouvido médio e drenar secreções.

Em crianças pequenas, esse canal é mais curto, mais horizontal e mais flácido do que em adultos. Isso facilita a passagem de bactérias e vírus do nariz para o ouvido e dificulta a drenagem adequada. Conforme a criança cresce, a tuba vai assumindo posição mais vertical e o problema tende a diminuir.

Outros fatores que aumentam o risco de otite:

  • Frequentar creche ou escola (maior exposição a vírus)
  • Adenoide aumentada (que pode obstruir a tuba auditiva)
  • Rinite alérgica mal controlada
  • Exposição a cigarro (mesmo passivamente)
  • Amamentação em posição horizontal

Quando a otite se torna "de repetição"?

Fala-se em otite média recorrente quando a criança tem três ou mais episódios em seis meses, ou quatro ou mais episódios em doze meses.

Nesse cenário, a avaliação pelo otorrinolaringologista é importante por alguns motivos:

1. Investigar a causa subjacente. Adenoide aumentada e rinite alérgica são causas frequentes de otite recorrente. Tratar a causa reduz a frequência dos episódios.

2. Avaliar a audição. Episódios repetidos de otite podem gerar acúmulo de líquido no ouvido médio (otite secretora), que reduz a capacidade auditiva. Em crianças na fase de aquisição de linguagem, isso pode impactar o desenvolvimento da fala.

3. Considerar a necessidade de tubo de ventilação. Em alguns casos, a colocação de um pequeno tubinho no tímpano (tubo de ventilação ou "grommet") pode ser indicada para ventilar o ouvido médio e reduzir a frequência das infecções. A decisão é sempre individualizada e depende de uma avaliação cuidadosa.

Sinais que pedem avaliação imediata

Além da otite recorrente, alguns sinais indicam que a criança deve ser avaliada com urgência:

  • Dor intensa que não melhora com analgésico
  • Febre alta persistente (acima de 39°C por mais de 48 horas)
  • Saída de secreção pelo ouvido
  • Inchaço ou vermelhidão atrás da orelha
  • Criança muito prostrada ou que não reage normalmente aos sons

O papel da amamentação

O leite materno tem ação protetora comprovada contra otites. Crianças amamentadas exclusivamente nos primeiros seis meses têm risco significativamente menor de otite recorrente. Se possível, evitar o uso de chupeta após os seis meses também contribui para reduzir os episódios.

Otite de repetição tem causa identificável na maioria dos casos. Com a avaliação correta, é possível reduzir os episódios e proteger a audição da criança.

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