Dra. Mariana Fischer, Otorrinolaringologista

Blog · Julho de 2026

Respiração bucal em crianças: consequências e quando tratar

Respirar pela boca não é apenas um hábito. Em crianças, a respiração bucal crônica pode afetar o desenvolvimento da face, dos dentes, do sono e até da aprendizagem. Entenda as causas e o que fazer.

Quando uma criança respira pela boca com frequência, muitas vezes os adultos ao redor normalizam a situação: "ela está resfriada", "é um hábito", "vai passar com a idade". Em alguns casos isso é verdade. Mas quando a respiração bucal se torna crônica, as consequências podem ser sérias e duradouras.

Respirar pelo nariz é a forma correta

O nariz não serve apenas para sentir cheiros. Ele tem funções respiratórias importantes que a boca não consegue substituir:

  • Filtra partículas, poeira e alérgenos do ar
  • Aquece e umidifica o ar antes de chegar aos pulmões
  • Produz óxido nítrico, que tem ação vasodilatadora e antibacteriana
  • Contribui para a pressão adequada do ar nas vias aéreas

Quando a criança respira habitual ou exclusivamente pela boca, ela perde todos esses benefícios.

Causas mais comuns de respiração bucal

A respiração bucal sempre tem uma causa. As mais frequentes são:

Adenoide aumentada: A causa mais comum em crianças. A adenoide obstrui a passagem do ar pelo nariz, forçando a respiração pela boca.

Amígdalas aumentadas: Junto com a adenoide, amígdalas volumosas podem estreitar as vias aéreas superiores.

Rinite alérgica: A inflamação crônica da mucosa nasal causa obstrução, levando a criança a respirar pela boca.

Desvio de septo: Pode contribuir para obstrução nasal, embora seja menos frequente como causa isolada em crianças pequenas.

Hábito bucal: Em uma parcela menor dos casos, a respiração pela boca pode se manter como hábito mesmo após a causa ser resolvida, principalmente quando a obstrução existiu por muito tempo.

Consequências da respiração bucal crônica

As consequências dependem de quanto tempo dura a respiração bucal e em que fase do desenvolvimento a criança está.

Alterações na face e nos dentes

O nariz e a boca são estruturas que se influenciam mutuamente no desenvolvimento. Quando a criança respira pela boca por longo período, a pressão do ar dentro das fossas nasais diminui, e o palato (céu da boca) não se desenvolve na largura ideal. Isso pode resultar em:

  • Palato estreito e ogival (em formato de V, em vez de U)
  • Mordida aberta (os dentes de cima e de baixo não se encontram)
  • Mordida cruzada
  • Prognatismo (queixo para frente) ou retrognatismo
  • Face alongada (síndrome da face longa)
  • Necessidade de tratamento ortodôntico mais complexo

Quanto mais cedo a causa for tratada, mais o desenvolvimento pode ser guiado de forma natural.

Qualidade do sono

Criança que respira pela boca dorme mal. A respiração bucal dificulta a manutenção do sono adequado, aumenta o risco de ronco e de apneia obstrutiva infantil. As consequências do sono ruim incluem agitação noturna, cansaço diurno e irritabilidade.

Desenvolvimento e aprendizagem

Sono de má qualidade afeta diretamente a capacidade de concentração, memória e aprendizagem. Crianças respiradoras bucais têm maior incidência de queixa escolar e de diagnóstico de déficit de atenção, muitas vezes relacionado ao sono insuficiente e não a um distúrbio neurológico primário.

Alterações na postura

A respiração bucal frequentemente vem acompanhada de alterações posturais: cabeça projetada para frente, ombros arredondados e coluna em posição inadequada. Isso acontece porque o corpo busca uma posição que facilite a respiração oral.

Saúde bucal

Respirar pela boca resseca a mucosa oral e reduz o fluxo de saliva. A saliva tem função protetora para os dentes. Por isso, crianças respiradoras bucais têm maior risco de cárie, inflamação das gengivas e alterações na mucosa oral.

Como identificar se a criança respira pela boca

Observe em momentos de repouso, como durante o sono ou assistindo televisão:

  • A boca fica aberta, mesmo em repouso?
  • A criança ronca ou respira ruidosamente durante o sono?
  • Baba muito no travesseiro?
  • Tem saliva nos cantos da boca com frequência?
  • A voz tem tom anasalado, como se estivesse sempre congestionada?

O que fazer

O tratamento da respiração bucal começa pela identificação e tratamento da causa. A avaliação com otorrinolaringologista é o primeiro passo, pois permite verificar se há adenoide ou amígdalas aumentadas, rinite ou outra obstrução nasal.

Dependendo da causa e da gravidade, o tratamento pode ser clínico (medicamentos para rinite, por exemplo) ou cirúrgico (adenoidectomia, quando indicada).

Em paralelo, pode ser indicado acompanhamento com ortodontista, fonoaudiólogo e fisioterapeuta, especialmente quando já há alterações estabelecidas no desenvolvimento da face, na fala ou na postura.

A respiração bucal crônica tem causa tratável na maioria dos casos. Tratar cedo evita que consequências menores se tornem problemas maiores.

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